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QR CODE TENTA SE POPULARIZAR, MAS ESBARRA EM PADRONIZAÇÃO

QR CODE TENTA SE POPULARIZAR, MAS ESBARRA EM PADRONIZAÇÃO


Aplicativos oferecem alternativa de pagamento para compras em lojas físicas

Tássia Kastner
SÃO PAULO

Em uma tentativa de replicar o gigantesco mercado de pagamentos da China —em que compras e contas de restaurantes passam por uma carteira virtual (como o WeChat), e não por cartão e maquininha—, alguns dos principais aplicativos de delivery e pagamentos começaram a corrida para emplacar QR codes no Brasil.

Entre os exemplos estão Rappi, iFood, Mercado Pago e PagSeguro. Todos transformaram seus apps em carteiras digitais e oferecem a possibilidade de pagar compras em lojas, bares e restaurantes, postos de combustíveis e farmácias apontando a câmera do celular para um QR code.

O movimento ficou tão agressivo que os grandes bancos estão reagindo: o Itaú Unibanco ainda está em fase de testes com o iti, enquanto o Santander fez um upgrade no aplicativo de cartões Way para transformá-lo em uma carteira digital.

Pode parecer que são iniciativas restritas, mas o QR code está em todas as principais maquininhas e bancos —o ponto é que até aqui ninguém deu muita bola para isso. 

Passado o primeiro ciclo de garantir que aplicativos estejam nos celulares, o que existe agora é uma corrida dessas empresas para credenciar estabelecimentos e garantir que eles tenham os QR codes e aceitem a modalidade de pagamento. É justamente aqui que os problemas começam.

Não existe uma padronização desses códigos: cada carteira digital tem o seu código, seja ele estático —um adesivo ou plaquinha no caixa— ou dinâmico, que é exibido na maquininha de cartão compatível com a carteira. No caso do Santander, por exemplo, as maquininhas da Getnet vão começar a oferecer a opção para quem usa o Way. 

Os esforços de unificação são limitados e com ainda menos escala que a aceitação do QR code, o que significa que é quase como voltar ao tempo em que um cartão Mastercard passava apenas nas maquininhas da Rede e os da Visa, nas da Visanet (atualmente Cielo). Com os QR codes, é como se fosse preciso ter várias maquininhas para garantir que o cliente conseguirá pagar sua compra como deseja.

E isso ocorre inclusive por uma estratégia dos aplicativos. “Quando começar a crescer o uso de QR code, vai ser bom para todo mundo. Mas eu tenho uma vantagem de ter os lugares certos e não estou disposto a abrir mão da vantagem”, afirma Rogério Pagliari, executivo responsável pelo Rappi Pay.

ENTENDA O PAGAMENTO POR QR CODE

  1. Carteira digital

    Aplicativo que funciona como uma conta de pagamentos e pode ser integrado ao cartão de crédito. O dinheiro depositado nessa carteira pode ser usado para pagar compras pela internet ou em lojas que tenham um QR code

  2. QR code

    É um tipo de código de barras que armazena informações: se for estático, dados da conta do vendedor, para que ele receba o dinheiro. No código dinâmico, gerado na maquininha, por exemplo, o código inclui também o valor da compra

  3. Quais são as vantagens e desvantagens?

    O sistema tem menos intermediários, o que torna o pagamento mais barato. Mas os códigos não estão padronizados e ainda têm baixa aceitação

Existe a expectativa de que o BC (Banco Central) unifique os QR codes, o que deve ocorrer apenas quando o sistema de pagamentos instantâneos for implementado –o calendário está previsto para 2020.

Dando um passo atrás: quando se fala em pagamentos a lógica é tentar resolver o problema do consumidor da maneira mais simples possível, para que ele não desista da compra.

Quando essa forma de pagamento se popularizou na China, o país asiático não tinha massificado o uso de cartões e a oferta de maquininhas que aceitavam o meio de pagamento era baixa.

“Na China não existia o sistema de maquininhas, o sistema de pagamentos era dinheiro.O QR code surgiu como alternativa digital ao pagamento analógico. Foi a primeira alternativa digital”, afirma Pagliari, do Rappi Pay.

No Brasil atual, 36% do consumo das famílias passa por cartões e existem 44,6 maquininhas de cartão para cada mil habitantes. Segundo dados compilados pela Abecs (associação da indústria de cartões), essa proporção é quase o dobro das 22,4 maquininhas por mil habitantes na China.

Ainda no levantamento da entidade, de 2018, o país com maior proporção é Singapura e seus 45,6 equipamentos por mil habitantes –o estudo não mostra os Estados Unidos. 

É difícil dizer que a falta de maquininhas limita o crescimento do mercado de cartões: a meta da Abecs é processar 60% do consumo das famílias com pagamentos eletrônicos até 2022.

Executivos das empresas de aplicativos com quem a Folha conversou se apegam às desigualdades do Brasil para explicar por que haveria espaço para a expansão dos QR codes. E apostam em benefícios adicionais.

“E eu me fiz essa pergunta: por que vou usar [carteira virtual e QR code]? Tem que ter benefício adicional [ao pagamento com cartão]”, afirma Rodrigo Furiato, diretor comercial da carteira digital do Mercado Pago.

Isso explica as promoções agressivas do braço financeiro do Mercado Livre. Para consumidores, o aplicativo tem oferecido descontos de R$ 10 para pagamentos de compras e até recargas do bilhete único (o cartão de vale transporte de São Paulo).

Do lado do comércio, a oferta é de uma redução no valor da taxa de desconto (cobrada sobre o valor de cada venda) e que ronda os 2% vendas a débito e os 3% a crédito, nas principais maquininhas. Até agora, a empresa conseguiu credenciar 70 mil estabelecimentos.

O que muda aqui é a ausência de intermediários: se antes a taxa era distribuída entre maquininha, bandeira e banco emissor do cartão de crédito, agora ela precisa pagar uma única empresa, a que cuida da carteira virtual.

É nessa estrutura mais simplificada que os aplicativos apostam para ficar com um naco maior da receita que antes era dividida entre grandes empresas do mercado financeiro.

“No pagamento via cartão, o cliente usa o cartão para passar na maquininha para pagar o banco para ir ao intermediário. Cada intermediário precisa ser remunerado. o próprio estabelecimento precisa do hardware [maquininha]. Quando vai para o QR code, não tem esses intermediários”, reforça o executivo do Rappi Pay.

Falta ainda combinar com os consumidores. Para que eles possam pagar com QR Code, precisam ter dinheiro nessa carteira virtual, retomando a pergunta que se faz Furiato.

Na prática, as carteiras virtuais têm funções (e custos, como são os saques que tem tarifas de mais de R$ 6, muito parecidas com as das contas digitais, como Nubank ou PagBank.

São inclusive uma aposta dessas empresas para aumentar a inclusão financeira, de uma população com baixo acesso a serviços bancários, mas que também fica com preguiça de cozinhar quando chega do trabalho à noite e decide pedir comida. É por isso que eles apostam que a pergunta poderá passar a ser “é crédito, débito ou QR code?”.

Folha de S.Paulo

2019-10-25 14:14:34